Ensino Superior

‘Proper dress’

Miguel Copetto 
09/03/10 00:05


Considero a falta de aprumo uma desvalorização dos padrões universitários.

Na última cerimónia de entrega de diplomas de fim de curso a que assisti numa universidade, reparei que a maioria dos recém -diplomados não estavam trajados para a ocasião. Tratando-se de uma cerimónia, deveriam aqueles licenciados dignificar o acto, impondo a si próprios uma certa solenidade. Mas não. Poucos estavam de fato, gravata muito menos e, para não destoar da indumentária, avançavam para o canudo de mão no bolso. As recém-licenciadas, que antes tinham orgulho na escolha do vestido para a ocasião, agora trajam maioritariamente com roupa excessivamente informal e de gosto duvidoso, em perfeito desajuste com a dignidade da entrega do diploma que, em muitos casos, significa o início de uma carreira no mercado de trabalho.

Ainda tenho por certo que nas cerimónias há um código social a respeitar pelo que considero esta falta de aprumo uma desvalorização dos padrões universitários. Não penso assim por um qualquer conservadorismo bafiento, baseado na rigidez de certos padrões de comportamento, mas sim pelas razões que estão na base daquilo que se está a querer impor às universidades.

O papel da educação superior é oferecer à sociedade cidadãos educados, providenciando capital cultural, valores e conhecimento, prerrogativas fundamentais para uma cidadania activa e esclarecida na participação democrática para debates políticos e éticos do nosso tempo. Actualmente, esta visão da educação tem dado lugar a um certo operariado mecanicista em que as universidades são meras fábricas para servir a máquina da economia. A tentativa de afunilamento da missão da universidade ao mercado de emprego - em que o objectivo são performances técnicas com objectivos previsíveis, resultados e indicadores de desempenho mensuráveis - tende a afastar o ensino superior de uma actividade intelectual e ética.

Não é que não seja importante que os cursos devam estar adequados às exigências do mercado de emprego - é certo que sim -, mas formação superior pressupõe permitir a um ser humano desenvolver as suas aptidões físicas e intelectuais bem como os seus sentimentos sociais, estéticos e morais.

Jürgen Habermas, em "O discurso filosófico da Modernidade", é apologista de uma educação que propicia o desenvolvimento humano para uma vida prática inter-subjectiva e de um saber que desperte inquietude e que facilite um diálogo interpretativo da realidade, responsabilizando os indivíduos na sociedade. Se, por razões que se prendem com a massificação do ensino, em que os estudantes chegam à universidade sem o conhecimento sobre determinados valores e padrões culturais, deve a instituição ser inclusiva socialmente - até porque os serviços que as universidades prestam são tão importantes como os valores que representam.

Contudo, à cautela, numa universidade do Texas, nas instruções que presta para a cerimónia de entrega de diplomas, pode ler-se, entre outras informações, o seguinte:

"Os candidatos são obrigados a apresentar-se de uma forma profissional. Os homens devem vestir fato, sapatos, camisa branca e gravata. As mulheres devem vestir-se de uma forma correspondente. O uso de jeans, ténis, e vestuário inadequado pode resultar no seu afastamento da cerimónia de graduação. Pedimos que se recorde de que esta graduação serve como uma conquista muito significativa. Em alguns casos, os alunos podem ter dedicado vários anos das suas vidas, com grande sacrifício, para chegar a este momento".
____

Miguel Copetto, Investigador da Universidade Autónoma