As Finanças, lideradas por Teixeira dos Santos, argumentam que os mercados ainda não estão normalizados.
O País pagou quase 6% para emitir dívida. As Finanças dizem que os “mercados de dívida ainda não estão normalizados”.
O regresso dos nervos aos mercados levou Portugal a pagar um juro recorde para emitir dívida. Ontem o Estado colocou 1,039 mil milhões de euros em obrigações a três e a dez anos. E, na maturidade mais longa, o valor pago para convencer os investidores a comprar dívida nacional foi de 5,937%, a taxa mais alta desde que a introdução do euro, em 2002, data dos últimos dados disponibilizados pelo IGCP.
O ministério das Finanças comentou a operação, defendendo que os mercados ainda não estão normalizados, que a procura excedeu a oferta e que o juro pago saiu abaixo do negociado no mercado secundário.
Na emissão com maturidade em 2012, o Estado colocou 378 milhões de euros, sendo que na emissão a três anos o encaixe foi de 661 milhões de euros. A procura excedeu a oferta em 1,9 e 2,6 vezes, respectivamente. Na maturidade mais curta o juro foi de 4,086%. Numa altura em que a aversão ao risco voltou a despertar, o mais importante é, segundo analistas contactados, conseguir garantir o encaixe previsto nas emissões de dívida.
O administrador da gestora Optimize, Diogo Teixeira, referiu que "as condições de mercado estão difíceis, mas é um sucesso emitir dívida a longo prazo, apesar do custo relativamente elevado". Por seu lado, o economista-chefe do UniCredit, Marco Annunziata, disse que "dado o ambiente desfavorável em termos de aversão ao risco, a emissão foi satisfatória e suportam a minha visão de que Portugal está numa posição mais sólida que a Irlanda e a Grécia".
Apesar do preço elevado, as contas dos analistas do HSBC para a execução do programa de financiamento português são positivas. Numa nota aos investidores, o banco destaca que "Portugal completou cerca de 80% da suas necessidades de financiamento para este ano, o que, combinado com a emissão, pode ser visto como um desenvolvimento positivo". O mercado parece ter concordado, já que diferencial entre o juro exigido pelos investidores para deterem dívida portuguesa a dez anos em vez de alemã desceu ligeiramente depois de na terça-feira ter atingido um máximo histórico. Situou-se nos 350.78 pontos base.
IGCP evitou ultrapassar fasquia dos 6%
Em Junho, os analistas do Barclays alertaram que era "insustentável" para um país emitir dívida a taxas de 6%. A emissão de ontem aproximou-se dessa marca, mas terá existido um esforço para não ultrapassar aquela fasquia. "Vender o mínimo na emissão a dez anos ajudou a conter a ‘yield', com o IGCP a não querer passar os 6%, que iriam gerar ‘headlines' negativas", referiu um analista do Commerzbank à agência Reuters.
Depois de uma acalmia no Verão, em que o Estado até conseguiu reduzir os juros pagos em algumas emissões, os nervos dos investidores estão novamente à flor da pele, motivados pelas preocupações em torno da saúde financeira irlandesa e grega. Quanto a Portugal, a perspectiva é que o aumento dos custos de financiamento não marque uma nova crise. "Continuo optimista de que isto não é o início de uma nova crise, mas mais uma fase de ‘stress' temporária provocada por efeitos de contágio", refere Annunziata.
O nervosismo terá levado ontem o BCE a comprar obrigações portuguesas, irlandesas e gregas, segundo a Bloomberg. "O BCE, via bancos centrais, tem tentado ajudar o mercado a formar preço, mais numa perspectiva de normalização das condições de liquidez do que de baixar os yields", explicou o economista da IMF Filipe Garcia.
Grécia e Irlanda têm juros mais altos que Portugal
1 - Grécia tem ‘yield' de 11,8%
A taxa exigida pelo mercado para comprar dívida grega a 10 anos é de 11,8%. O diferencial face ao juro da dívida alemã é de 952 pontos base. De acordo com as cotações do ‘credit-default swaps', a Grécia tem a segunda dívida mais arriscada do mundo, superada pela Venezuela. O mercado atribui-lhe mais de 50% de hipótese de ‘default'.
2 - Irlanda ultrapassa barreira dos 6%
Os problemas no sector bancário levaram os investidores a aumentarem o juro exigido para comprarem dívida irlandesa. A ‘yield' superou os 6%, apesar do diferencial face à dívida alemã se ter estreitado para os 371 pontos base, fruto da subida das ‘yields' germânicas. Os CDS irlandeses cotam nos 374 pontos, a sétima dívida com mais risco.
3 - Portugal alivia de máximos
O diferencial das ‘yields' portuguesas face às alemãs atingiu na terça-feira o valor mais elevado de sempre. Mas após a emissão de ontem, o ‘spread' desceu ligeiramente para os 350,78 pontos base. Apesar disto, a ‘yield' subiu, ultrapassando a fasquia dos 5,8%. Os CDS desceram para os 325 pontos, a nona dívida com mais risco.
4 - Espanha paga juros de 4%
Antes do Verão, a Espanha era um dos maiores receios do mercado. Mas a situação amainou. O diferencial da dívida espanhola face à alemã é de 174 pontos base e a yield das obrigações do país vizinho situam-se nos 4,038%. Já a cotação dos CDS situa-se nos 230 pontos, tornando a dívida espanhola na 15.ª com mais risco.