Gerir mercados

António Ramalho 
09/02/10 00:02


Gerir crises de mercado não é competência que se aprenda, nem projecto profissional que se ambicione.

Que o digam os actores da crise do financiamento de 82/83, os intervenientes das crises cambiais de 92/94, ou os gestores da crise global em que vivemos desde 2007. Em todas estas crises de mercado, sempre verifiquei uma tendência natural para a negação e um enorme sentimento de injustiça e de impotência entre todos os afectados pela crise. Não raras vezes, vi os mais consistentes liberais renegarem o "seu" Mercado quando apanhados no centro da tormenta.

Não espanta, por isso, a indignação com que políticos, analistas, reguladores e todos os agentes económicos reagiram à crise no mercado da dívida, que o contágio grego trouxe a Portugal. Até porque nos separa da Grécia mais do que um menor desequilíbrio das finanças públicas (menor défice, menor dívida pública). Separa-nos uma maior respeitabilidade estatística.

Acontece que os mercados não se movem por sentimentos, movem-se pela sua racionalidade. E, na sua racionalidade, o risco português degradou-se em 1,5% desde o início do ano (diferença de cotação dos CDS para risco soberano). E gerir mercados em crise não admite estados de alma; exige, pelo contrário, o mais frio dos profissionalismos. Só por isso, arrisco algumas notas.

Primeiro, os mercados falam inglês, logo, não interessam as declarações feitas para consumo interno, que aliás correm o risco de ser mal interpretadas, mas apenas as declarações orientadas às dúvidas internacionais. Segundo, os mercados de dívida são geridos por uma sucessão de intermediários financeiros (corretores, bancos e também agencias de rating). Naturalmente, o Estado tem que garantir o máximo apoio de todos eles e não ceder aos populismos internos de tipo "orgulho ferido". Terceiro, os mercados vivem de sinais, não de palavras. De nada serve contestar um sinal, o fundamental é demonstrar compromisso com resultados. Quarto, os mercados são intrinsecamente racionais, não se comovem com argumentos políticos, querem lógicas economicistas. Quinto, os mercados são impiedosos e sem memória. Vivem de prioridades de curto prazo. Não há que contestá-los, há que convencê-los no imediato.

Bem gerida, esta crise acabará por passar. Se a República for discreta, se cuidar dos financiadores, se der os sinais correctos e os quantificar, doseando tudo com urgência, a crise da dívida diluir-se-á no curto prazo. O que não se diluirá, mesmo para mim que sempre defendo o mercado, é esta amarga sensação de que o nosso enorme endividamento colectivo externo vai empurrando o país para um mero protectorado financeiro. Mas isso são estados de alma.
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António Ramalho, Gestor