Com a mesma força com que as águas engoliram vidas, destruíram casas, montes e estradas, o povo madeirense mostrou nas últimas duas semanas ao mundo como se transformam imagens de destruição num gigantesco cartaz de promoção à Madeira.
Alberto João Jardim preocupado, e bem, tentava nas primeiras horas da tragédia evitar o pior, pedindo que as imagens do temporal na ilha não corressem mundo para não afastar turistas . Em causa estão 22% do produto interno bruto do arquipélago gerado por cerca de 900 mil turistas por ano.
Uma tentativa quase ingénua uma vez que hoje é impossível, por vontade ou decreto, impedir que a informação de uma catástrofe circule pelo planeta em minutos.
Mas o Presidente do Governo Regional não necessitava de se preocupar, pelo menos com este problema. Os madeirenses ao mesmo tempo que choravam os mortos e limpavam as ruas registavam em fotografias e vídeos a recuperação. Em apenas algumas horas as imagens da destruição foram substituídas nas redes sociais por retratos de um povo a reconstruir uma ilha inteira!
A internet tornou-se assim mais uma vez , através do Twitter, Facebook e redes de e-mails, num verdadeiro jornal global com a contribuição dos chamados cidadãos jornalistas. Com eficácia mostravam como eram limpas as casas, reconstruídos os negócios, restabelecido o fornecimento de água e de luz numa desesperada busca da normalidade. As televisões e jornais fizeram o resto.
Sem ter consciência ou estratégia montada o povo da Madeira realizou assim uma poderosa contra-informação mundial que deu resultados. Para além da solidariedade nacional e internacional os madeirenses conseguiram que a imagem da ilha destruída esteja, pelo contrário, a sair agora reforçada. Sem agência de comunicação ou de publicidade um povo só por si, numa verdadeira luta pela sobrevivência, conseguiu na perfeição fazer o controlo dos danos.
Mas os madeirenses conseguiram muito mais. Sem qualquer esforço, e ainda com as águas do temporal a correr para o mar, inimigos políticos de gerações enterraram machados de guerra e esqueceram lutas e insultos. O que Presidentes, Partidos, Parlamento e leis tentaram sem sucesso durante décadas, as cheias das ribeiras da Madeira e a força de um povo conseguiram realizar em minutos. Nunca o Governo Regional esteve tão perto como agora do Governo da República!
Acompanhei toda esta situação, desde as primeiras horas da tragédia, a fazer o Telejornal em directo da Madeira. Terminado o trabalho, como geralmente acontece nestas situações, fiquei com muitas perguntas sem resposta e imagens que se colam a nós para sempre. Desta vez transportei comigo uma imagem e uma justificação.
Uma mulher, já seca de lágrimas para chorar os mortos e com o olhar perdido nos destroços do que restava da casa e da família, dizia: "Se Deus enviou este castigo por alguma razão será!"
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João Adelino Faria, Jornalista e ‘pivot' da RTP