Banca

BPI ruma a um rácio de crédito sobre depósitos abaixo dos 100%

Maria Teixeira Alves e Margarida Vaqueiro Lopes 
27/07/11 00:05


O presidente do BPI mostrou-se preocupado com o actual contexto económico nacional.

O presidente do BPI mostrou-se preocupado com o actual contexto económico nacional.

Fernando Ulrich diz que a um prazo de 5 a 10 anos os bancos terão de funcionar com rácios de transformação abaixo de 100%. O BPI já tem 110%.

O contexto em que vivem os bancos portugueses é muito agreste para o sector. O BPI é disso um claro exemplo. Basta ver que a rentabilidade dos capitais próprios a nível doméstico está nuns baixos 3,4%; os resultados continuam a cair, desta vez 20,4% face ao ano anterior; a margem financeira a cair 12,7% em Portugal; e as comissões a caírem 6,5%. O crédito desce 3,8% em Portugal - em parte porque o BPI assim quer - mas também porque o crédito a PME (rentáveis) tem sofrido uma queda da procura. As imparidades para crédito malparado subiram 10,6% num ano. O custo do risco do crédito aumentou para 0,42% (contra 0,39% em Março). Pode dizer-se que o panorama ontem mostrado por Fernando Ulrich tem pouco de animador.

E apesar do BPI neste momento já cumprir todas as exigências da troika: um rácio de transformação de 110% (incluindo obrigações colocadas em clientes que Ulrich diz serem futuros depósitos) e de 120% se forem depósitos puros; com o capital de base do banco já nos 9,1%; com um recurso ao BCE de apenas 1.000 milhões de euros (muito inferior ao futuro limite de 5,5 vezes as reservas de caixa) e um rácio de financiamento estável. Ainda assim, o BPI terá de procurar soluções para a escassez da liquidez, por um lado, e para reforçar o capital em 2012 para 10%, por outro.

Questionado Fernando Ulrich explicou que "a longo prazo, e nas actuais condições, um rácio de 120% é alto. Estamos a caminhar para um modelo em que teremos de funcionar com rácios de transformação abaixo de 100% [os depósitos serem superiores aos créditos]" explica o banqueiro. O BPI já se desalavancou em 1,6 mil milhões, num ano, isto sem vender carteiras de crédito. O banqueiro defende ainda que, no futuro, "o crédito a médio e longo prazo tem de ser menor". Na verdade, "o crédito a médio e longo prazo, em bom rigor, devia ser proibido para a banca, porque não é possível fixar o spread do meu passivo quando concedo créditos a longo prazo, logo não é possível definir o preço correcto de um crédito a 30 anos nas condições actuais", acrescenta Fernando Ulrich. Neste momento conceder crédito à habitação é um risco para os bancos: "A banca, apesar da redução, continua a dar crédito à habitação, mas fá-lo baseado numa fé de que as coisas vão voltar à normalidade. Esta fé não tem nenhum suporte objectivo, é porque a fé é inerente à natureza humana", diz o presidente do BPI.[CORTE_EDIMPRESSA]

Em relação ao capital, o banco terá agora de inventar soluções para o reforçar para 10%, no mínimo, em 2012. O que deverá levar à necessidade de um aumento de capital. Ulrich não fala desse futuro próximo. Mas voltou a alertar que a troika deveria rever esta meta. "O capital mínimo devia voltar a ser 8% e aos 2% de acréscimo por prudência (10% de capital) deveria ser possível abater os custos com reformas antecipadas e o reforço de imparidades", disse o banqueiro. O Estado (e o BEI) deviam criar linhas de crédito a longo prazo para os bancos (usando directamente o dinheiro da troika), em vez da linha de garantias e de capitalização, defende Ulrich.

O BPI teve em Junho um lucro de 79,1 milhões de euros, dos quais 10 milhões vêm de operações extraordinárias: a recompra de duas emissões de obrigações próprias, que gerou um ganho de 74,2 milhões de euros (entre o desconto da recompra antecipada de 30% e a libertação da operação de cobertura de taxa de juro inerente). Deste proveito extraordinário, 49 milhões foram alocados no programa de reformas antecipadas a concretizar até ao fim de 2011. Este programa é um investimento, uma vez que permite poupanças de 12 milhões de euros anuais em custos com pessoal, a partir de 2012. O BPI decidiu ainda alocar 24 milhões de euros em provisões para reforço de imparidades "para crédito e outras". Os restantes 10 milhões foram a resultados para compensar o imposto extraordinário, que representou um encargo de 7,6 milhões de euros. A ajuda aos números consolidados do semestre veio da área internacional (Angola e Moçambique): com um ROE de 30,1%, a área internacional contribuiu com 60% para rentabilidade consolidada do grupo.

É ainda de salientar que o BPI apresentou o rácio de crédito vencido a mais de 90 dias (doméstico), já com a metodologia exigida pela troika a partir de Setembro: esse rácio passou para 2,8% (é de 2,3% no método actual).