Os bancos liderados por Ricardo Salgado e Fernando Ulrich até têm melhorado resultados, mas o mercado não o tem reconhecido.
Nos últimos cinco anos, o ‘total return’ contrariou o crescimento anual médio dos resultados. Cotadas com perspectivas de crescimento foram as mais premiadas.
Os resultados anuais são um excelente barómetro para avaliar o verdadeiro estado de saúde de uma empresa. Além disso, servem de base a muitos investidores para montar a sua estratégia de ataque. No entanto, nem todas as cotadas que apresentam crescimentos anuais consecutivos das suas contas são premiadas pelo mercado. O Diário Económico foi à procura das empresas mais "injustiçadas" pelos investidores ao longo dos últimos cinco anos e encontrou quatro casos mais evidentes: BES, BPI, Brisa e Sonaecom.
Para os cálculos, comparou-se a variação anual média dos lucros com o ‘total return' (comportamento das acções juntamente com os dividendos distribuídos e reinvestidos em novos títulos) de 2005 até hoje. Na prática, BES e BPI apresentam variações anuais médias de lucros de 22% e 3%, respectivamente, nos últimos cinco anos. Contudo, os dois bancos registam ‘total return' negativos, de 9% e 8%, em igual período. Já os resultados recorde registados em 2010 permitiram à Sonaecom ter, em média, uma subida anual de lucros de 15% desde 2005. Mas em bolsa, o desempenho dos títulos mais a remuneração accionista paga é negativa em 16%. O caso da Brisa é semelhante, com a concessionária a apresentar uma variação anual média de lucros de 28% e um ‘total return' negativo de 0,3%.[CORTE_EDIMPRESSA]
Questionado, Paulo Santos menciona a importância da componente de expectativas sobre a banca. Segundo o analista da XTB "em 2005, a banca não via quaisquer problemas pela frente, não se esperava nenhuma crise de dívida nem qualquer tipo de incumprimento em larga escala. Em 2010, a situação é diferente, com o sobreendividamento nacional e uma crise de dívida substancial, com possibilidade de elevado incumprimento. As cotações da banca em geral, incluindo BPI e BES, reflectem essa expectativa". Além de referir que os dois bancos pertencem ao sector mais penalizado nos últimos anos, o CEO da corretora Dif Broker, Pedro Lino, sublinha que "apesar de terem registado um crescimento nos resultados, estes bancos realizaram aumentos de capital, diminuíram a remuneração aos seus accionistas, e enfrentam constrangimentos de capital nos próximos anos".
Os analistas contactados não têm dúvidas em considerar que o mercado tem ignorado o crescimento das contas destas cotadas e centrado atenções em outros factores. "Neste momento os investidores conseguem ver o problema de sustentabilidade e ignoram os lucros actuais pois vêem as perdas futuras", afirma Paulo Santos. Opinião partilhada por Pedro Lino: "os investidores estão a valorizar mais os factores macroeconómicos, a desaceleração da economia e incerteza em relação a regulação do sector e exigências de capital". Por seu turno, Duarte Caldas, da IG Markets, refere que "existe uma preocupação constante relativamente aos resultados futuros e quanto à evolução da conjuntura do negócio".
Mas se há quem tenha sido alvo de "injustiça" em bolsa apesar da subida de lucros, são várias as cotadas que têm estado nas boas graças dos investidores nos últimos anos. Entre as cotadas que apresentam o maior distanciamento entre um ‘total return' positivo e uma queda média anual de resultados estão a Altri, a Galp, a Semapa e a Sonae SGPS. A petrolífera, por exemplo, apresenta uma variação média anual negativa de lucros de 9%, enquanto que o desempenho das acções mais dividendo é positivo, em 23%. No caso da Semapa, a queda anual das contas foi, em média, 6% desde 2005, ao passo que o indicador apresenta uma variação anual média positiva de 17%.
"No caso da Galp e da Semapa, os investidores souberam interpretar o esforço que fizeram de internacionalização e aumento de exportações", justifica Duarte Caldas. A internacionalização volta ser mencionada por Pedro Lino: "Estas cotadas estão inseridas em sectores exportadores ou que beneficiaram da subida dos preços das matérias-primas, e que apesar das dificuldades da economia interna, investiram na internacionalização dos seus negócios". Para os analistas, as perspectivas de crescimento destas cotadas é a razão pela qual o mercado as tem "premiado" apesar da queda anual de lucros, em termos de ritmo médio. "No processo de decisão sobre investimento numa empresa, os investidores levam em conta as perspectivas futuras de crescimento da empresa, mesmo que os resultados não sejam imediatamente visíveis", refere Pedro Lino.
Para Paulo Santos "é uma questão de expectativas quanto a cada uma das empresas", dando o exemplo da Galp em que se espera "bastante criação de valor com a prospecção de petróleo no Brasil". Já Duarte Caldas acrescenta que "são empresas que têm feito muitos investimentos no seu negócio e dos quais deverão colher frutos no futuro".