A EDP, liderada por António Mexia, tem um novo accionista, com 2,01%: a Qatar Holdings.
O futuro accionista e respectivo projecto industrial estão condicionados pelos votos do conselho geral e de supervisão da EDP e por uma assembleia geral.
O novo accionista de referência da EDP - que vai sair da privatização dos últimos 20% do capital da eléctrica ainda nas mãos do Estado - terá de passar pelo crivo dos restantes accionistas. Ao eliminar os direitos especiais de que beneficiou nos últimos anos, o Estado ficou sem espaço de manobra para impor qualquer parceiro à revelia dos outros accionistas com assento no Conselho Geral e de Supervisão (CGS) da EDP.
Este é o órgão onde estão representados todos os investidores com mais de 2% do capital e que define as linhas estratégicas da empresa - qualquer proposta terá assim de garantir dois terços dos votos representados. Uma questão que ganha especial relevância numa empresa cotada e com regras estatutárias precisas, afirmaram ao Diário Económico diversas fontes ligadas ao processo.
A selecção do novo investidor e o respectivo projecto industrial terá, em última instância, de passar ainda por uma reunião mais alargada de accionistas. Um conjunto de etapas que torna o desfecho da operação num processo complexo.
O primeiro sinal de alerta já tinha sido dado pelo presidente dos BES Investimento (BESI), José Maria Ricciardi. Ao defender que o fim dos direitos especiais e o alargamento da blindagem de estatutos de 5% para 20% dos direitos de voto facilitou a privatização, José Maria Ricciardi é claro: "O banco, como accionista do núcleo duro, está empenhado em que se encontrem novos accionistas que se venham juntar de forma harmoniosa e se integrem dentro da estratégia da EDP e contribuam para o seu desenvolvimento, uma vez que é uma das principais empresas do País".[CORTE_EDIMPRESSA]
O Diário Económico sabe que a movimentação de diversos accionistas e da própria gestão da EDP, que contribuiu para a entrada de muitos dos actuais investidores da eléctrica através de parcerias estratégicas para diversas áreas de negócio, obrigou o Governo a alterar a estratégia inicial.
Apesar do encaixe continuar a ser uma prioridade, cujo valor poderia ser maximizado através de um leilão, o Executivo de Passos Coelho preferiu apostar numa colocação privada, o que permite uma negociação directa com os potenciais compradores.
Para estudar o modelo de privatização que melhor salvaguarde os interesses nacionais foi já criado um grupo de trabalho que conta com elementos dos Ministérios das Finanças e da Economia, Parpública e EDP. O caderno de encargos deverá, não só incluir estas orientações, como também ajudar a definir o perfil do novo accionista. A Morgan Stlanley foi, segundo a Bloomberg, a instituição escolhida para assessorar o Governo.
Interessados podem vir a subir preço das ofertas
A extinção dos direitos especiais do Estado na EDP e a próxima legislação, actualmente em discussão pública, destinada a pôr fim à blindagem de estatutos nas empresas cotadas prometem aliciar os candidatos e fazer subir o preço. Quem entrar na EDP terá inevitavelmente de pagar um prémio de controlo e pela posição de vantagem num eventual lançamento de uma oferta pública de aquisição. Valor que os analistas admitem poder atingir 30% a 40%. Hoje, a preços de mercado, o Governo não arrecadaria, no entanto, mais do que 1,6 mil milhões de euros pelos 20% que vai alienar. Um valor bem distante do patamar atingido na última fase de privatização, em 2007. A sua capitalização bolsista era então de 17 mil milhões de euros, mais do dobro dos actuais oito mil milhões de euros. Para esta queda contribuiu em grande parte a turbulência das bolsas e a perda de protagonismo do sector eléctrico entre as preferências dos investidores. A ensombrar o encaixe da privatização estão algumas das alterações que o sector energético vai sofrer em Portugal por imposição da ‘troika', cujo desfecho continua a ser uma incógnita. Questões consideradas decisivas num processo negocial.