A solução

Daniel Amaral 
21/01/11 00:02


O Governo embandeirou em arco com um suposto ganho de €800 milhões no OE-2010: o défice teria caído 0,5 pontos para os 6,8% do PIB.

Mas esqueceu-se dos €2,8 mil milhões da PT: sem eles, o défice subiria para os 8,5%. Espanta-me que os analistas de Economia falem tão pouco sobre isto. Absorver um fundo de pensões significa receber hoje o que depois se paga com juros aos pensionistas: uma dívida como qualquer outra. Não estão preocupados?

Somos um país muito estranho. Temos uma dívida soberana da ordem dos €140 mil milhões, dos quais 20-25% se vencem até Abril, mas ficamos todos contentes porque colocámos mais mil milhões. Há muita gente que ainda não percebeu. Nós não estamos a amortizar nada. Estamos a endividar-nos todos os dias; e estamos a substituir dívidas por outras dívidas com juros mais altos. À nossa frente está uma parede de granito onde vamos bater.

Se não quisermos enterrar a cabeça na areia, concluiremos sem esforço que os mercados da dívida se desdobraram em dois: os que nos ignoram, porque não querem chatices, e os que ainda admitem financiar-nos, mas a taxas de juro que são verdadeiras extorsões. E, a um prazo curto, não vai restar-nos alternativa que não seja bater à porta do único financiador disponível a taxas razoáveis: o fundo de estabilidade europeu. A factura vem a seguir.

Com o país a arder, é no mínimo surpreendente que sejam portugueses a atirar mais achas para a fogueira. Cavaco Silva, lá do alto do seu poder institucional, não se eximiu a lembrar aos mercados que, se houver derrapagens, é porque o Governo falhou. Lindo! E Passos Coelho foi logo a seguir confortá-lo: falhando o Governo, e a haver necessidade de ajuda, ele está ali para ajudar. Fantástico! Com amigos destes, quem precisa de inimigos?

O enquadramento futuro parece definido. Depois de amanhã, o actual PR vai ser reeleito. Como o Governo "falhou", o melhor é dissolver o Parlamento, antecipar eleições e substituí-lo por outro. E, para "ajudar", nada melhor do que um governo que não governa, de preferência apoiado pelo PSD e pelo CDS. O verdadeiro governo vem a seguir, pertence ao universo dos deuses e traz consigo a solução: chama-se Fundo Monetário Internacional.

É o fundo do poço.

NAS MÃOS DO FMI

Cai a economia... (PIB, variação (%))  Dispara a dívida ( Dívida pública, (% PIB))
   

Fonte: Eurostat.

Portugal, Grécia e Irlanda revelam percursos semelhantes: quedas abruptas no produto no biénio 2008-09 e recuperações fraquíssimas nos anos seguintes, arrastando na onda dívidas públicas ingeríveis. Mas a inversa também é verdadeira: foi a gestão destas dívidas, com os seus duríssimos planos de austeridade, que ajudou a travar o crescimento. A Grécia e a Irlanda já recorreram ao FMI. Portugal vai a caminho disso.

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Daniel Amaral, Economista
d.amaral@netcabo.pt