Fernando Ulrich avisa que a economia nacional precisa de rentabilidade e capitais próprios.
O presidente do BPI acredita que um dos problemas da economia nacional se prende precisamente com o excesso de crédito e alerta para o facto de o País precisar de "capitais próprios e rentabilidade" ao invés de mais crédito. Fernando Ulrich mostrou-se também reticente em relação às actuais condições de concessão de financiamento a médio e longo prazos por parte dos bancos nacionais e voltou a pedir "reflexão" sobre o programa da ‘troika' para a banca nacional.
Já por mais de uma vez referiu a necessidade de reflectir sobre o programa da ‘troika' para a banca nacional. Que temas considera centrais para esta reflexão?
Entendo que o plano para a banca não é bom, nem só para a banca como para a economia. E creio que pode ser melhorado se for feita uma reflexão. Por exemplo, em vez de capital, o que a economia portuguesa precisa é que os bancos tenham capacidade para fazer financiamento a médio e longo prazos. E neste momento, em rigor, os bancos até deviam ser proibidos de fazer financiamento a médio e longo prazos. Como é que se gere risco a médio e longo prazos? Tradicionalmente tomava-se como base de raciocínio o custo de financiamento da República. Neste momento, se fizermos isso, é impossível [as pessoas conseguirem pagar]. Se eu fosse regulador diria aos bancos: Não façam. Parem.[...] Porque nos novos créditos os bancos cobram ‘spreads' bastante mais altos. O problema é que é numa operação a trinta anos, o ‘spread' está fixado para trinta anos e eu não tenho maneira de fixar o ‘spread' do meu passivo para os mesmos trinta anos. [...] Outra questão é o facto de a economia nacional não precisar de mais crédito. Precisa é de mais capitais próprios e de mais rentabilidade.
Afirmou, no início desta semana, que "enquanto se lembrasse do que aconteceu" não regressaria aos mercados. Porquê?
Isto é biunívoco. Eles não confiam em nós mas eu também não confio neles. Fomos seguindo uma estratégia que tinha como um dos pilares a confiança de que conseguíamos regularmente obter financiamento a médio e longo prazos no mercado de capitais. A nossa situação não se alterou drasticamente e o mercado cortou-nos todo e qualquer tipo de apoio sem critério, sem nenhuma racionalidade. É perigoso fazer assentar o desenvolvimento de um banco, no longo prazo, no pressuposto de que tem regularmente acesso ao mercado. Porque estamos há anos numa situação em que esse acesso foi sendo possível apenas intermitentemente e em condições muito difíceis. Portanto, voltar a crescer muito os activos, com os pressupostos assentes na convicção de que está lá o mercado...eu enquanto me lembrar não sou capaz.
Haverá uma equipa da ‘troika' responsável por acompanhar os processos de desalavancagem de cada um dos bancos portugueses. Essa equipa já falou com o BPI?
Ainda não. Temos uma reunião agendada para Agosto onde vamos discutir os planos que entregámos a 30 de Junho. Creio que será só isso em agenda.